Geração independente na ponta

RESUMO

A curva de carga do sistema elétrico brasileiro tem uma demanda acentuada no horário das 18 às 21 horas. O sistema tarifário horo-sazonal azul busca, por meio de tarifas diferenciadas, em função do horário do dia, premiar o consumo e a demanda fora da ponta. Define-se como horário de ponta, para efeitos de tarifação, três horas consecutivas das 17 às 22 horas, de segunda a sexta-feira, ou seja, em um mês tem, em média, 65 horas de ponta e 665 horas fora de ponta. A demanda e o consumo são taxados em cerca de duzentos por cento e mais de trezentos por cento a mais na ponta do que fora de ponta, respectivamente. Por essas razões, o custo da energia elétrica e da demanda no horário de ponta acaba custando por hora cerca de nove vezes o correspondente preço do horário normal. A geração própria no horário de ponta pode vir a se justificar economicamente. Este artigo apresenta estudos comparativos de viabilidade econômica de várias opções de geração independente para o horário de ponta: uso de lenha, de bagaço de cana e de gás natural. Além dessas opções, a utilização de conjunto de baterias e inversores de freqüência para o armazenamento de energia elétrica em horários fora de ponta para utilização na ponta foi estudada. A opção mais viável de geração independente fora de ponta, ou o armazenamento, dependerá das condições de cada projeto.

Palavras-chave: Co-geração, produção independente de energia elétrica, fontes alternativas de energia.


ABSTRACT

The Brazilian electric system load curve has an accentuated demand from 18 to 21 hours. The time-of-use tariff system charge as a function of the time of day and the year’s period. By doing so, a costumer is reward if he/she consumes in off peak hours. The peak hour for tariff effect is defined as three consecutive hours from 5 to 10 p. m. from Monday through Friday; that is to say, in one month it has, on average only 65 hours peak and 665 hours off-peak. The demand and the consumption at the peak hours are rated in about two hundred percent and three hundred percent above the corresponding off-peak periods. For those reasons, the monthly electrical bill for the peak period ends up costing per hour about nine times the corresponding off-peak period. The electric energy auto generation at peak hours could become economically attractive. This article presents several options of electric energy independent generation to be used at peak hours. A comparative economic viability studies it is shown, using as fuel: (i) firewood; (ii) sugar cane bagasse, and (iii) natural gas. Besides these options, a set of batteries with an electrical system with frequency inverters was investigated. The batteries were used to energy storage during the off-peak period and during the peak period the frequency inverter converts the direct to alternating current. The best peak hour auto generation option will depend on the specific project’s conditions.

Keywords: Auto-Generation, Electrical energy independent production, energy alternatives sources.


INTRODUÇÃO

A energia elétrica, por ser fundamental para a economia do País e para uma melhor qualidade de vida da população, vinha sendo, historicamente, atrelada às políticas de segurança nacional e a monopólio de Estado. Porém, o crescimento econômico, o advento da melhoria nas comunicações físicas e eletrônicas e o amadurecimento da sociedade passaram a provocar o relaxamento das relações sociais, comerciais e internacionais. Como disse McLuhan, na década de sessenta, o mundo caminhava para se tornar uma aldeia global, e daí a globalização. Nesse contexto, tornou-se imperiosa a desregulamentação do setor elétrico, permitindo a participação de pequenos produtores. Mesmo nos EUA, onde a influência da regulamentação federal tem permanecido forte, a legislação do PURPA (Public Utilities Regulatory Policy Act), em 1978, estimulou a ampla introdução dos pequenos produtores independentes na indústria de oferta de eletricidade (JANNUZZI & SWSHER, 1997). A tendência crescente é a de maior desregulamentação do setor elétrico, assim como de toda a economia. Essa tendência é o resultado da evolução e do amadurecimento da sociedade humana. À medida que a sociedade apresenta condições e interesse de assumir determinada atividade, o Estado deve transferir a ela essa responsabilidade. O Estado deve atuar nas atividades necessárias ao País, em que a iniciativa privada ainda não tenha apresentado interesse e competência.

As tarifas de energia elétrica praticadas no Brasil são sensivelmente maiores que as tarifas do mundo desenvolvido. Aqui, a produção de eletricidade é predominantemente hidrelétrica e nos outros países, predominantemente termelétricas. O preço médio de um kWh residencial a R$0,133, e industrial, a R$0,058, praticado no Brasil em 1998 (BRASIL, 1999) e os preços médios do Canadá e EUA a R$0,058, o residencial, e a R$0,044, o industrial (CANADÁ, 1999), mostram essa situação. Considerando, ainda, que esses países têm maior renda “per capta” (cerca de 6 vezes maior), e melhor divisão de renda, os preços da energia aí praticados tornam-se ainda menores, relativamente.

No Brasil, como um todo, os reajustes acumulados do ano de 1999 até maio de 2000 foram de 17,6%; no Sudeste, de 23,46%; e em Minas Gerais, CEMIG, de 30,47% (ANEEL, 2000). No ano de 1999 a inflação brasileira foi de cerca de 7%. A desestatização do setor, a necessidade de mais investimentos, para permitir o crescimento necessário, e a comercialização da energia como pacotes de mercadoria deverão, nos próximos anos, acrescentar outros salgados percentuais a esses preços já praticados. Em vista disso, esforços de geração independente e estratégias de gerenciamento pelo lado da demanda devem ser despendidos por parte do empresariado para a diminuição de custos, aumento das condições de concorrência de seus produtos e independência em relação às flutuações de uma economia não estabilizada e dependente.

Figura 1 apresenta um esboço da curva de carga elétrica diária do sistema elétrico nacional. O pico de demanda da curva, que ocorre próximo às 18 horas, aproxima-se da potência instalada, pondo em risco a segurança do sistema. Objetivando deslocar parte do consumo desse período para outros, a partir de 1986 foi introduzida no País a tarifa binômia horo-sazonal, por meio de sobretaxas da demanda e da energia durante esse período. É, também, desestimulado o uso da energia elétrica, por meio de tarifas maiores, no período considerado seco para os reservatórios das hidrelétricas, que vai de maio a novembro.

Dentro desse contexto, surge a política de geração distribuída, que, ao contrário de se ter grandes geradores distantes do mercado consumidor, pulveriza-se pequenos parques geradores pelo País, localizados mais proximamente aos pontos de consumo. Isso, por si só, já representa economias de transmissão e de subestações de elevação e de rebaixamento de tensão. Para as indústrias que necessitam de calor, como as químicas, as alimentícias e as de fabricação de papel e celulose etc, o calor liberado após o trabalho na geração elétrica é aproveitado nos processos de produção. A isso se chama co-geração, que eleva substancialmente a eficiência total do sistema.

A economia de escala que até 1970 reduzia os custos de grandes centrais de geração vem sendo solapada pelas opções descentralizadas, incluindo tecnologias de GLD (Gerenciamento pelo Lado da Demanda) para a eficiência energética e gerenciamento de carga. Nesse sentido pesam, também, as tecnologias de geração com a utilização de combustíveis renováveis e pequenas centrais a gás, especialmente as que envolvem a co-geração de calor e potência, que estão se tornando alternativas bastante competitivas em relação às tecnologias convencionais (JANNUZZI & SWSHER, 1997).

As novas tecnologias de geração caracterizam-se por maior eficiência e menores níveis de poluição, com algumas utilizando combustíveis renováveis. Graças ao gás natural (metano) da Bolívia, Argentina, Campos ou Urucu, que inicia o abastecimento das regiões industriais do País, espera-se, para pouco tempo, as termelétricas a gás natural passarem de 3% para 12% de nossa matriz energética. O gás natural apresenta combustão praticamente completa, resultando CO2 e água e baixíssimas quantidades de poluentes, em relação a outros combustíveis fósseis. O processo de ciclo combinado de gás e vapor faz com que a eficiência de geração elétrica ultrapasse 50%. O aproveitamento residual do calor pode elevar a eficiência térmica acima de 85% (SIEMENS, 1997).

O uso da biomassa, como o bagaço de cana, a lenha e os resíduos florestais, além de viável economicamente, não influi no efeito estufa, devido ao balanço do consumo de CO2 em novo ciclo de crescimento vegetal. Testes recentes (COSTA “et al.”, 1999) mostram que o metanol nas concentrações de 10% a 50% V/V usado nas células a combustíveis de carbonato fundido podem alcançar eficiências elétricas de 45% a 60%. O álcool minimamente desidratado representa uma grande economia de investimento na planta e no custo final. Assim, pode-se aproveitar o álcool para as células e o bagaço para as turbinas. A GE programa o lançamento do módulo GE MicroGeneration de células a combustível de 7 kW para janeiro de 2001, a um preço estimado entre US$7,500.00 e US$10,000.00, e espera que, com a produção em massa, até 2003 seu preço caia para menos de US$4,000.00. O aproveitamento do calor residual deve elevar sua eficiência a até 70%. Para esse tipo de geração elétrica, o portfolio da GE vai de 7 kW a 45 MW (GE, 1999).

A energia elétrica fotovoltaica, que é a conversão direta do fluxo fotônico em fluxo eletrônico, por meio de células de estado sólido, já é viável economicamente para regiões distantes das redes elétricas e vem apresentando eficiências crescentes e custos decrescentes, projetando a concorrência com os métodos tradicionais de geração para o ano 2010. Essa forma de energia gratuita, totalmente inesgotável, não limitada e não poluente traz ainda a vantagem da auto-suficiência, da independência. O projeto alemão de cem mil telhados fotovoltaicos e o megaprojeto norte-americano de um milhão de telhados fotovoltaicos até 2010, não só estão estimulando novas pesquisas, como também deverão reduzir seus custos pela escala de produção. Papéis de parede fotovoltaicos e telhas fotovoltaicas arquitetonicamente projetados já são realidade.

A Universidade Federal de Viçosa, distante dos gasodutos e ocupando uma área em seu campus principal de 1.410,80 ha, com cerca de 130 ha reflorestados e em condições de serem utilizados como floresta energética, abre a perspectiva da termeletricidade com a utilização de biomassa.

Supondo uma produção de 40 m3/ha/ano e um rendimento de 33% pode-se gerar cerca de 4,4 MW para funcionamento de 3 horas por dia com um fator de carga de 80%.

O problema do alto preço da demanda fornecida na ponta pode, também, ser resolvido com o armazenamento de energia no período fora de ponta, a custos menores, para utilização no horário de ponta. O caminho estudado foi o da retificação da corrente para o armazenamento em baterias automotivas e posterior recuperação, por meio de inversores, para o acionamento de equipamentos e iluminação.

Outra alternativa para o armazenamento de energia no horário fora de ponta para uso na ponta é o da injeção de ar comprimido em cavernas subterrâneas, com posterior aproveitamento em turbinas (AHRENS e KARTSOUNES, 1979) .

A perspectiva de economia com a auto-suficiência do consumidor no período de ponta leva a situações de ganho em termos de País. O problema elétrico nacional não se refere à energia elétrica em si mas à potência disponível. Qualquer economia de eletricidade no horário de ponta, com autogeração, com maior eficiência ou com o deslocamento do uso para o período fora de ponta, traz enormes benefícios econômicos, sociais e ambientais. Pela curva de carga do sistema elétrico nacional, Figura 1, percebe-se que o período fora de ponta apresenta uma utilização média do sistema menor que 50%.

O sistema elétrico é projetado para o atendimento de uma dada potência, no caso, a ponta. Assim, paga-se um alto preço para a utilização de energia elétrica por um curto espaço de tempo. Durante todo o tempo do período fora de ponta, uma fração do investimento feito satisfaria as necessidades dos consumidores. Dessa forma, subtrair consumo de energia da ponta significa uma melhor utilização das instalações e o adiamento de novos investimentos e problemas sociais e ambientais. Isso deveria mesmo reverter em menores custos de energia para o consumidor.

O País, desde a década de oitenta, vem apresentando curtos períodos de crescimento e longos períodos de estagnação ou recessão. Segundo o comportamento das contas públicas e do panorama mundial, de acordo com as expectativas dos economistas, o País está entrando num novo período de crescimento sustentado. Talvez o maior empecilho para esse crescimento seja a limitação energética. O crescimento produtivo e o aumento do consumo como um todo levam obrigatoriamente a um crescimento do consumo de energia elétrica, especialmente no estágio de desenvolvimento em que o Brasil se encontra. Não se pode crescer sem energia e não se pode crescer mais rapidamente que o aumento da quantidade de energia ou de um expressivo aumento de eficiência energética. A construção de centrais geradoras, de subestações de elevação e de rebaixamento, de linhas de transmissão e distribuição consomem vários anos e altos investimentos. Para isso, é preciso capital. Para ter capital, é preciso de crescimento e, para esse crescimento, falta energia.

A solução para esse impasse, pelo lado da oferta de energia, passa pelos pequenos produtores, micro-produtores e autoprodutores para o período de ponta.

A maior responsabilidade pelo pico do consumo é devida ao setor residencial, no que diz respeito principalmente ao chuveiro elétrico e à iluminação. Pouco tem sido feito no sentido de estimular a eficiência da iluminação residencial e o deslocamento do aquecimento de água para banhos para o período fora de ponta. Buscar resolver situações com regulamentos e majorações impositivas, resquícios de um passado recente, simplesmente camuflam a situação com mais injustiças sociais. Dessa forma, o consumidor residencial paga tarifas superiores ao do mundo desenvolvido e as indústrias sofrem os prejuízos provocados pelos altos custos da energia elétrica no período de ponta. Esse é o contexto visto até agora.

OBJETIVOS

Este artigo tem como objetivo principal:

Apresentar estudos comparativos da técnica e viabilidade econômica de várias opções de geração independente para o horário de ponta: gás natural, biomassa e armazenamento no horário fora de ponta para a utilização no horário de ponta, por meio de baterias automotivas.

Os objetivos específicos são:

1. Apresentar alternativas para diminuir os custos com energia elétrica no horário de ponta para a Universidade Federal de Viçosa por meio da geração independente, com o aproveitamento do vapor de saída para o aquecimento de água em substituição aos chuveiros elétricos;

2. Estudar a viabilidade técnica e econômica da possibilidade de utilização de conjuntos de baterias e inversores de freqüência para o armazenamento de energia elétrica em horários fora de ponta para sua utilização na ponta.

MATERIAL E MÉTODOS

A metodologia aplicada é a simulação de opções de geração independente no período de ponta utilizando turbinas a vapor, por gás natural, bagaço de cana, lenha e armazenamento por baterias automotivas. A situação de co-geração não foi abordada por não haver consumo, no momento, para todo o vapor liberado no processo. Seu uso torna-se restrito ao aquecimento de banhos, com queda no consumo e potência elétricos, o que pode ser considerado aumento de eficiência.

O trabalho foi realizado para as condições do campus da Universidade Federal de Viçosa, que apresentou, em março/2000, a planilha de custos de energia elétrica da concessionária CEMIG, mostrada na Tabela 1.

Figura 2 mostra a curva de carga consumida pela Universidade Federal de Viçosa em um dia típico, apresentando dois picos de consumo coincidentes com o horário de funcionamento dos trabalhos de manutenção, técnicos e administrativos. As multas de ultrapassagem sugerem o acompanhamento de uma série de contas mensais no sentido de verificar a necessidade de um novo contrato de fornecimento de energia com a concessionária.

O período de ponta para a CEMIG é das 17 às 20 horas. Pela Figura 2, a demanda máxima atingida do período de ponta ocorre entre 17 e 18 horas. Em geral, a demanda atingida entre 18 e 19 horas corresponde a cerca de 64% a das 17 horas e entre 19 e 20 horas corresponde a cerca de 59%. Em valores reais, para o dia pesquisado, as demandas horárias foram: 2700 kW, 1722 kW e 1596 kW.

Como o que vale para o mês é a demanda máxima atingida, o valor seria de 2700 kW, caso esse dia corresponda ao dia de demanda máxima. Com a substituição de chuveiros elétricos pelo calor residual dos processos de geração elétrica, a demanda do horário das 17 horas deve cair para cerca de 2300 kW

Tabela 3 apresenta os parâmetros e preços comuns nas análises efetuadas, incluindo horizonte de planejamento, aumento anual do custo do combustível e inflação.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A legislação, no sistema tarifário binômio horo-sazonal, refere-se a períodos do dia de ponta e fora de ponta e a períodos do ano, seco e úmido. O período de ponta corresponde a três horas consecutivas entre 17 e 22 horas, definidas pela concessionária, de segunda a sexta-feira, sendo ou não feriado. Nesse período, ocorre um pico de consumo de eletricidade, daí a demanda de potência e a energia serem sobretaxadas. A demanda tem tarifa 3 vezes maior e a energia, 2,3 vezes maior para a CEMIG, Minas Gerais. Assim,. pelas tarifas do mês de março de 2000 da CEMIG, um kW fora de ponta custa, para o consumidor, R$6,060976 e na ponta R$18,18293. O kWh fora de ponta, R$0,0501098 e na ponta, R$0,1159756.

A tarifa de demanda é um valor independente do consumo, sendo diluída em até 665 horas do mês médio para o período fora de ponta e 65 horas para o período de ponta. Dessa forma, a tarifa de demanda fora de ponta torna-se muito mais diluída no período que a do período de ponta.

Para uma percepção mais próxima dos valores reais praticados no mercado de energia, será tomado como exemplo um consumidor hipotético com uma carga contratada de 1 kW e que tenha um fator de carga de 60%, que é a média brasileira. Nesse caso, ele estará consumindo 399 kWh fora de ponta e 39 kWh na ponta.

Ponta:

Fora de ponta:

Para o fator de carga médio, o custo da conta de energia dos períodos de ponta e fora de ponta tem valores muito próximos. Dividindo esses valores pela respectiva quantidade de kWh consumido de energia, o kWh na ponta terá um custo de R$0,582 e o kWh fora de ponta de R$0,065. Dividindo, finalmente, um custo pelo outro, o custo real da energia consumida na ponta, para o fator de carga citado, é 8,93 vezes maior que no horário fora de ponta.

Esse alto custo da energia elétrica no período de ponta é a motivação do desenvolvimento deste trabalho.

Como o fator de carga tem participação importante no rateio da tarifa de demanda dos kWh do mês, a Tabela 2mostra essa situação para vários fatores de carga

Nas análises dos processos, o percentual médio anual de manutenção foi 4,2% e o investimento total de R$2.625.000,00, para a geração. Para as baterias, o percentual médio anual de manutenção foi de 9,5%, a eficiência de 60% e o investimento total de R$2.325.000,00. Para todas as situações, a potência foi de 2500 kW. O investimento inicial inclui a subestação de elevação de tensão e o sistema de controle correspondendo a 43% do investimento total. Os demais parâmetros, por serem genéricos aos sistemas estudados, podem ser vistos naTabela 3.

Os índices das análises econômicas, para as quatro alternativas de geração, são apresentados na Tabela 4 e comentados. a seguir.

BAGAÇO

O bagaço de cana, subproduto da moagem da cana-de-açúcar para a produção de açúcar e álcool, é um combustível muito utilizado no aquecimento de água em caldeiras, seja para aquecimento de processos industriais, seja para a geração de energia elétrica.

A TIR, Taxa Interna de Retorno, em 21% apresenta uma boa remuneração para o capital a ser investido na geração própria, mostrando que os juros reais podem variar de 12% a 21%, mantendo o investimento lucrativo. A RBC, Razão Benefício Custo, de 1,36 mostra ser boa. Ao final do horizonte de planejamento, a preços de hoje, representaria um ganho de 36% em relação ao valor investido. O TRC, Tempo de Retorno do Capital, em quatro anos e quatro meses para o horizonte de planejamento de quinze anos, é um bom tempo de retorno. Os VPL, valores presentes líquidos, das duas situações, ou seja, permanecer consumindo energia elétrica da CEMIG ou passar à geração própria com bagaço de cana mostram, em valores atuais, os desembolsos no horizonte de planejamento. O preço utilizado da tonelada do bagaço de cana foi de R$4,00.

LENHA

Os resultados são um pouco inferiores aos do bagaço de cana. Foi utilizado o preço de mercado para a tonelada de lenha de R$37,65. A Universidade, como descrito anteriormente, possui área de reflorestamento e vastas áreas no campus principal e ainda outras áreas próximas que poderiam ser utilizadas para a geração de energia, com redução de custos. Se essa produção própria for considerada na análise, os resultados passam a apresentar índices econômicos mais atraentes para o investimento, assim como, com a estrutura montada, a produção de eletricidade nas vinte e quatro horas do dia

GÁS NATURAL

As variáveis econômicas para o gás natural mostram resultados um pouco inferiores aos da lenha. A análise do gás natural foi feita para se ter uma visão comparativa, visto ser este combustível abundante, limpo, sem necessidade de estocagem, tornando-se disponível nos grandes centros e muito em voga como uma solução imediata para o problema energético. No entanto, para a Universidade Federal de Viçosa, distante de gasodutos, torna-se inviável. O preço de mil metros cúbicos de gás natural foi estimado em R$300,00, correspondendo a cerca de 100% a mais que o preço da PETROBRÁS para as distribuidoras, segundo a ANP, Agência Nacional do Petróleo, consultada por correio eletrônico.

BATERIA

A verificação da viabilidade econômica do armazenamento de energia elétrica em baterias automotivas no período fora de ponta para posterior utilização na ponta, um tanto exótica, tem as vantagens de menor poluição sonora, atmosférica e térmica, e praticamente, não contribui para o efeito estufa. Quanto ao fim que teriam as baterias de chumbo-ácido ao fim de suas vidas, não foi considerado. Seu uso ajudaria no melhor equilíbrio da curva de carga mostrada na Figura 1, por deslocar consumo da ponta para fora de ponta, como se retirasse parte de uma montanha para preencher uma depressão, especialmente da madrugada, horário de menor consumo, que poderia ter um custo menor.

Esse é um caminho viável economicamente, como os anteriores, e, relativamente aos demais, apresenta equivalência, exceto quanto à Razão Custo Benefício, que foi prejudicada pela necessidade de reposição do lote de baterias a cada cinco anos de uso. Essa vida útil, para as condições, foi estimada tomando informações dos fabricantes como base. Embora a literatura dê, para as baterias estacionárias com regime suave de carga e descarga, uma vida que pode chegar a dez anos, caso de sua utilização no sistema fotovoltaico, neste teste elas foram consideradas com vida de cinco anos. Nos veículos, os solavancos freqüentes, as altas temperaturas próximas ao motor e as altas descargas diminuem rapidamente a vida útil das baterias. Segundo CEPEL-CRESESB, 1999, a bateria é feita para funcionar a 250 C, temperaturas mais altas diminuem sua vida. Crê-se que sua vida poderia ser maior que cinco anos, para as condições, o que tornaria o investimento mais atraente. O preço da bateria de 150 Ah, unidade do conjunto, foi orçada no mercado, para compra de milhares de unidades, em R$100,00.

A utilização de inversores de freqüência merece maiores estudos, devido à imperfeição da onda senoidal, afetando a potência e os equipamentos sensíveis, e à existência de harmônicos quando em conexão com a rede da concessionária.

CONCLUSÃO

A energia elétrica no Brasil está mudando de monopólio de Estado para oligopólio privado. O risco de o consumidor tornar-se vítima de cartel é bastante grande. Para isso, é necessário pulso forte e seriedade por parte dos agentes reguladores.

Independentemente da situação energética nacional, é importante para o grande consumidor tornar-se independente, tanto quanto possível, em relação à energia elétrica, insumo fundamental em todo meio produtivo. Essa independência em relação a um único fornecedor ou a uns poucos pode ser obtida por meio da auto-geração, objeto deste trabalho. A autogeração com o aproveitamento do calor residual em processos da própria indústria permite um substancial aumento da eficiência energética de todo o sistema.

As quatro alternativas energéticas estudadas não apresentam grandes diferenças nas análises econômicas. Como todas são viáveis, técnica e economicamente, a escolha deve recair sobre a que oferecer as melhores condições locais de instalação e manutenção. Dessa forma, para a Universidade Federal de Viçosa, a opção recai sobre a lenha, pela sua área já reflorestada e espaço suficiente para outros reflorestamentos. O bagaço apresenta melhor resultado de análise, entretanto, a região não apresenta disponibilidade suficiente dessa biomassa. Em relação à lenha, a cana-de-açúcar requer melhores solos, maior e mais extensivo trato cultural e mais mão-de-obra que a lenha. Soma-se a isto, o alto investimento de construção de uma usina, cujo contra-senso, é o de ter como objetivo maior a utilização de seu subproduto, o bagaço.

As análises desenvolvidas mostram a viabilidade econômica e estratégica da autoprodução de energia elétrica para o período de ponta. O uso de autogeração com os combustíveis estudados mostrou-se viável, também, para o período fora de ponta, para quem tiver a estrutura montada. No caso da utilização da lenha, o uso da usina em período integral reduz o tempo de retorno do capital de quatro anos e oito meses para três anos e um mês e a TIR aumenta de 19% para 32%. O calor de rejeito poderia ser aproveitado no Restaurante Universitário, laboratórios de tecnologia de alimentos etc., provocando um aumento da eficiência térmica do processo com maior retorno econômico.

O esperado aumento das tarifas de energia elétrica para os próximos anos deverá influenciar positivamente a autogeração e a co-geração. Essas análises são bastante imparciais, não se restringindo às situações vividas pela Universidade Federal, podendo, portanto, serem aplicadas a outras situações.

Há que se considerar, também, os problemas legais e técnicos da interligação do sistema de geração de energia elétrica com a rede da concessionária, especialmente, a necessidade de sincronismo e de controle de nível de tensão.

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